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Semelhança na Praça

Atualizado: 10 de ago. de 2020

Aqui estamos.

Estando à praça, observadores, observados, moderados e moderadores, partes e participantes, e sujeitos de conversa, sujeitos à conversa.

O melhor da praça é o agregar tudo, cada um em sua singularidade e os múltiplos em interação, em integração.

Em outros tempos, templo de reminiscências à revelação por experiências vividas.

Porém, na ágora, o agora. O momento. A praça é mais um templo do agora, em acolhimentos de diversos, em harmonia de contrários.

O ser e o estar à praça é a predisposição ao encontro.

O saudoso velhinho à parte assentado, absorto, estando ali sem o que o ampare e sem nada esperar, é do vago pensamento tirado, ao abalroar dos livres movimentos de uma criança que persegue o brinquedo e não espera, anseia de volta segurar, com uma babá que, por sua vez, trôpega a acompanha, em seu desajeitado cuidar.

A asseada mãe de múltiplos do interior das minas corre para afastá-los as mãos da boca de saliva com odor de peixe marítimo do cão, esse tutoreado pelo galã solteiro, os dedos correndo aos laços de família pelo celular.

O anão vestido de hippie, aposentado no seu ofício, conversa sobre futebol de outros tempos, de Reinaldo, Zico, dinamite, encarrega-se de desincumbir-se de relíquias de família ao longilíneo empresário de multinacional de modernas tecnologias robóticas a substituir partes do corpo humano e a substituir humanos em mecânicos cargos.

A uma mesa perto da viga do caramanchão , 64 quadriculadas casas desenhadas, um professor de geometria em escola privada, de xadrez vermelho e preto vestido e com leve deformidade no quadril e tendo aos pés um quadrúpede, em silenciosa e demorada jogada que dá lugar a abruptamente em um grito a senha de um xeque-mate, enquadrado no ângulo pelo seu oponente, aluno de curso rápido de 4 semanas, tempo em que teve seu contrato rompido, demitido de um quadro de quarenta funcionários de empresa pública.

A esportista de porte esbelto faz uma “live” mostrando suas incontáveis voltas ao redor da praça, enquanto o sedentário que sem ver sentido na vida porta-se encolhido a um escondido banco ao centro e, sem se dar conta, volta a cabeça para ela.

Uma criança, com uniforme do jardim de infância, com a mãe, pós-graduada, rosto deformado por uma recente intervenção cirúrgica a eliminar uma lesão pré-cancerosa, para e pede um churrasquinho em uma barraca, o vendedor diz “este está duro, há muito tempo aí e muito passado, faço outro para você”. Para agradar, puxa conversa. Entrega o apetitoso espeto, enquanto a senhora reclama, “ainda está cru e sangrento”.

Essa a praça, a ágora, onde o agora é o momento vivido em humanidade.

É onde o médico, e é onde o homeopata quer estar.

Ser ou estar, ser e observar, ouvir... conversar.... Promover conversas e encontros... Acordos, acordes, sons e ressonâncias... Harmonias... Ecos...


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